A liderança no Divã

Atualizado: 4 de dez. de 2020


Trouxe para esse artigo o capitulo que escrevi para o livro "Liderando Juntos", lançado em junho de 2020.


 


O trabalho dos líderes é criar um ambiente de encorajamento, conhecimento, colaboração e acolhimento.


Soa simples. Mas não é.


Líder é um estado de espírito que mora dentro de nós. Lideramos o tempo todo. Este capítulo traz uma série de reflexões amparadas pelo aconchego do divã. É sobre autoconhecimento, para que líderes ajudem a transformar pessoas de uma maneira mais gentil




 

Quando recebi o convite de Marcelo Simonato para escrever um capítulo sobre liderança para este livro, aceitei, mesmo sabendo que muito já foi dito sobre o assunto. Na hora, senti uma energia primitiva, capaz de me safar deste desafio. Eu apostei alto, acre ditando ser possível inovar e inspirar. Lembrei de outras vezes em que senti a mesma energia, capaz de mover o mundo.


Foi essa mesma pulsão de vida que me fez ganhar um prêmio na Harvard, como melhor em comunicação escrita, em 1999. Passaria a ser bolsista pelos próximos três semestres. Na hora em que recebi o desafio, fiz um acordo comigo mesma: sim, eu seria capaz de ganhar, em primeiro lugar.


Assim também foi quando assumi, por 15 anos, a gestão da área de RH, nas empresas de Roberto Justus. Sim, Roberto Justus, meu bem, meu mal. Mas, como diria Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”


Justus foi um dos bons líderes que tive. Sim, porque não se faz história sem um líder corajoso, que acredita no talento das pessoas e seja capaz de investir em provocações que causam mudanças em todos. Ele foi o primeiro empresário do mercado de comunicação no Brasil a dar protagonis mo para a área de RH - “Riqueza Humana”. Em 1994. Ele mesmo passou por importantes transformações nestes 15 anos. Ele era o dono da melhor agência para se trabalhar! E eu era a RH, a riqueza humana!


Com a mesmíssima energia, ganhei três anos consecutivos – 1994/1995/1996 – como gestora de uma das 20 melhores empresas Great Place to Work e uma das 40 melhores para a mulher trabalhar.


Então, eu, com todos esses anos de experiência com o desafio de for mar líderes melhores, vi carreiras decolarem e muita gente crescer, então, eu seria sim capaz de escrever este capítulo de forma digna, sem petulância, capaz de inspirar algumas pessoas e, quem sabe, contribuir com um mundo mais gentil.


A decisão veio também porque creio que uma das urgências destes tempos é ajudar pessoas a ajudarem pessoas, líderes ajudarem liderados. Esse é um dos meus propósitos de vida. Isto é o futuro presente.


Também tenho uma convicção de que “o RH é cada um de nós, em cada uma das nossas atitudes”, principalmente dos líderes, aos quais é dado o poder para transformar, inspirar, construir um sistema de crenças e valores para serem usados na prática, em todas as interações com seres humanos, todos os dias.

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Então, eis que desafio dado é desafio cumprido!


Espero que você tenha uma boa leitura e que a simplicidade de cada palavra, e das minhas experiências cuidadosamente selecionadas para fa zer corpo a este livro, possam alcançar e inspirar líderes como você, para ajudar a transformar o mundo em um lugar melhor.


Apresentando o conceito das próximas palavras


“Meu eu interior derreteu-se logo que me

coloquei naquele sofá (...). Qualquer coisa que suporta

minhas costas reforça minha resistência.”

(Sabedoria Psicanalítica)

O divã surgiu no império otomano como “lugar de conforto”. Aos consultórios de psicanálise chegou quando Freud ganhou o caro e estimado presente de uma ex-analisanda, há 130 anos.


No divã, pessoas sedentas pela felicidade interior já deixaram muitos de seus desconfortos: dúvidas, cobranças, relacionamentos, expectativas, dilemas com os pais, alegrias e todos os tipos de sentimentos. O propósito do divã é colocar a pessoa no centro da discussão: quem ali está é o foco do assunto, naquele momento.


Assim, vamos trazer para o divã alguns dos principais dilemas, senti mentos e assuntos específicos da liderança, em forma de reflexão. Os próximos parágrafos virão em forma de perguntas para que possamos entrar em contato com nosso líder interior, e, por meio desta reflexão, possamos clarear pensamentos, até respondermos nossas próprias inquietudes.


Afinal, o que é liderança?


Liderar existe desde que o mundo é mundo. A história remonta à região da Mesopotâmia, por volta de 4.000 a.C., por conta da necessidade de se viver em conjunto. Naquela época, a liderança foi exercida pela autoridade de direito divino e o dever dos seguidores era se submeter e obedecer. A grande revolução dos tempos modernos foi a revolução da igualdade.


O líder deve ser capaz de se adequar às mudanças e preparar seu grupo para estes tempos ágeis. Além de objetivos a cumprir, também é dada ao líder a função de conduzir a equipe ao propósito em comum.


É necessário ter valores muito claros e um caráter bondoso, e ser facilitador da paz.

Caráter bondoso? Sim, de pessoas facilitadoras. É disso que se trata a liderança, pois ela mora na simplicidade e na felicidade.


O trabalho nos dignifica ou nos detona?


Como escreveu Tarthang Tulku, o trabalho nos dá a oportunidade de alcançar satisfação por meio do desenvolvimento das verdadeiras qualidades da nossa natureza. É a expressão habilidosa da totalidade do nosso ser, um recurso para harmonizar o equilíbrio entre nós e o mundo. Por meio do trabalho, contribuímos para a vida com a nossa energia, investindo nosso corpo, nossa respiração e mente em atividades criativas. Todos somos criativos. Daí, importante assumir que a sobrevivência do líder depende da nossa disposição para trabalhar com a força total dos nossos corações e mentes. É o que chamamos de nosso propósito.


Ao trabalhar com líderes, foco para que encontrem mais facilmente, em si mesmos, os recursos para obter essa satisfação por meio do trabalho no dia a dia, pois, com autoconhecimento, podemos romper com qual quer sistema de crenças e valores, fazer mudanças enormes e descobrir novas habilidades, inimagináveis, tangenciando a consciência das nossas verdadeiras capacidades.


Os tempos de hoje gritam pela busca de propósito. Trabalhar com habilidade requer três passos: ficar cientes da realidade das nossas dificuldades; tomar uma resolução de mudar; compartilhar.


Como comunicar sem invadir?


Em seu livro Diálogo e a arte de pensar junto, o professor do MIT e líder neste estudo, William Isaacs, defende o estabelecimento de relações de parceria e cooperação, prezando pela comunicação eficaz e com empatia. Tive a sorte de fazer parte de um de seus grupos no MIT, em 2000.


Ainda segundo ele, na maioria das vezes, sabemos o que queremos dizer e esperamos a nossa vez de dizê-lo. Estamos fechados para ouvir o inesperado dos outros, afastando-nos de trocas honestas que nos deixam iluminados e inspirados a agir.


Muitas vezes, nossas ideias para um novo projeto ainda estão ocultas em nossos pensamentos. A partir do momento em que falamos e saem de nossa cabeça, novas criações começam a existir no plano da realidade.


Assim como no divã, todos os diálogos na liderança devem ser baseados em falar e ser ouvido; ouvir e compreender o que está sendo dito. Meu desejo aqui é inspirar líderes a dialogar de maneira clara e tranquila com a equipe, para que cada vez mais rodas de conversas sejam promovidas, no intuito de unir e fortalecer o time para que todos caminhem na mesma direção, com o mesmo propósito, de uma maneira mais gentil.


É isso. Sei que todos nós queremos ser úteis, estarmos envolvidos com um propósito. Isso é a felicidade.


Qual é a nossa proposta de valor neste negócio?


Esta é a pergunta de 1 milhão de reais. Trazemos a história do divã para representar o ambiente esperado neste encontro. Intimidade. Reflexão. Nada de julgamento. Formar um grupo.


O convite para o divã é o convite para diálogos aprofundados sobre a atuação operacional e estratégica. A operação já está sendo substituída por uma inteligência artificial, agora, o sentimento humano está intacto! Mesmo sabendo de experiências para humanizar robôs, a certeza sobre cada ser humano ser um planeta completo, impossível de ser reproduzido, é muito forte. É nessa reflexão que moram as novas possibilidades, o trabalho do fu

turo. Também é bom lembrar que, para se construir o futuro, é necessário ter a base pronta para criar o futuro, que começa agora mesmo. Fizemos uma pesquisa, aberta no LinkedIn, para saber sobre como lí deres estão se sentindo. Pasmem: apenas 11% consideram oferecer um ambiente mais feliz para todos.




Diante desse cenário, o mais prudente é refletir. Mudar de dentro para fora, daí o divã. Precisamos de líderes mais felizes, mais integrados na estratégia de negócios e no Zeitgeist dos tempos atuais.


Como ser ágil em um Zeitgeist no qual ninguém tem mais tempo para nada?


Zeitgeist é um termo alemão para designar o espírito de um tempo ou de uma época. Sem dúvida, o do nosso tempo é também a necessidade de cocriar, respeitar, ser gentil.

Estamos vivendo em tempos de metodologias ágeis. Aprender e usufruir dessas metodologias é essencial para transformar situações caóticas em soluções assertivas, em pouco tempo.


No entanto, aprender sobre elas é uma coisa. Saber administrar um ambiente onde essas metodologias estão cada vez mais sendo usadas é outra coisa. A liderança tem a ver com qual coisa?


Sugiro uma imersão no livro SCRUM, de Jeff Shouterland. É um romance que nos ensina o mindset da prática: conseguir mais resultados, na metade do tempo, com qualidade melhor.


Ainda de acordo com Jeff, o SCRUM dá espaço para a incerteza e a criatividade, criando um alicerce para o aprendizado da equipe. A ideia é fazer junto, tomar menos e mais assertivas decisões durante o processo/jornada e evitar decepções, custos e surpresas desagradáveis só no final do trabalho.


O que importa são os ciclos de aprendizagem, testes e o encontro dos produtos que melhor têm fit com o mercado das necessidades e devem fazer parte do dia a dia do líder.


Tempos ágeis. A tecnologia fez o tempo ganhar outra dimensão, um ritmo de voo livre.

Assim, estabelecemos uma relação de ganha-ganha-ganha com a gente mesmo: mais tempo produtivo, mais satisfação, mais harmonia e conformidade com a pirâmide de necessidades de Abraham Maslow.


Quais reflexões são adequadas para a liderança fazer e ter as respostas que precisa?


As novas metodologias, como o SCRUM, transformam as relações de trabalho de forma significativa, uma vez que requerem participação de todos os envolvidos logo no início do desenho da jornada. O jogo é outro. Todos contam.

Uma das maneiras mais criativas de desenhar as etapas de entregas (sprints) é utilizando Post-its®, em um quadro dividindo o projeto em pequenos módulos, entre tarefas “não iniciadas”, “em progresso”, “acumuladas” e “concluídas”. Assim, a equipe pode visualizar com clareza suas reflexões e também gerenciar seus projetos. Vale muito a pena conhecer esse processo.


Como encerrar ciclos sem encerrar ciclos?

Para finalizar este capítulo, quero falar sobre a importância de fechar ciclos, sem que eles se fechem por completo. Um ciclo é um conjunto de acontecimentos sucedidos em uma ordem determinada. Quando um falha, a sequência é alterada e, às vezes, o ciclo não se fecha.


Nós, líderes, vivemos e criamos ciclos o tempo todo. E, muitas vezes, não entregar resultados com a equipe, não ser gentil, não se comunicar com clareza e não ouvir a si mesmo e aos outros nos trava diante do ciclo natural da liderança. Esse cenário parece cruel, mas não podemos esquecer que é disso que se trata uma empresa: atingir resultados e fazer isso gerar valores para todos os stakeholders.


Eis aqui a importância de deixar tudo em seu devido lugar. A importância de manter nossos diálogos no divã e fora deles, também.


Retomando William Isaacs, dialogar é como fazer uma investigação compartilhada, uma maneira de pensar e refletir juntos. Não algo para se fazer para outra pessoa, mas fazer junto com ela. Eu acredito piamente que dialogar é escutar.


Fechar um ciclo de maneira gentil é transformar trabalho em felicidade. Todos ganham quando o ciclo é fechado corretamente. Tudo flui. O ideal é refletir sobre o que liderar, e a maneira como vamos fazer isso. Prestando atenção à necessidade de paz e não violência.


Necessidade de trabalhos significativos. Necessidade de crescimento. De participação. De evolução do nível da consciência. Necessitamos de realização da essência. Somos um organismo vivo, integrado e interdependente. Vamos nos permitir encerrar ciclos que, além de ampliar nossa capacidade evolutiva, perpetuem o nosso maior legado: a busca do melhor para todos. Aqui termina o capítulo e começa o nosso ciclo de contato: (11) 99394-2036 – Este é o meu WhatsApp.


Ah! Sem a Van, a Mo, o Davi, o Guto e a Thaes, não teria sido possível. Inspirem-se.


Liderar é para os fortes.


Dentro de nós mora um líder.


É este líder que queremos acessar.




Referências

ISAACS, William. Dialogue and the art of thinking together. Ed. Crown Business, 1999. SUTHERLAND, Jeff; SUTHERLAND, J.J. SCRUM. A arte de fazer o dobro do trabalho na meta de do tempo. Ed. Sextante, 2019.

TULKU, Tarthang. O caminho da habilidade. Ed. Cultrix, 2010.

AMBROSE, Larry. A mentor’s companion. Ed. Perrone-Ambrose Assoc Inc, 1998. ROBERT, Karl-Henrik. The natural step. A história de uma revolução silenciosa. Ed. Cultrix, 2014.




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